Inconformadas
2026
Galera Claraboia, São Paulo, SP
2026
Galera Claraboia, São Paulo, SP
Inconformadas apresenta na Claraboia obras de 24 artistas mulheres do período moderno e contemporâneo que encontraram na abstração um espaço de criação.
A mostra parte de uma hipótese central: formas moles e fluidas, quando realizadas por mulheres, foram historicamente interpretadas como sinais de uma feminilidade negativa, associadas à fragilidade, à intuição e à falta de rigor, e, por isso, desvalorizadas. Já quando esses mesmos recursos aparecem na obra de artistas homens, costumam ser celebrados como poéticos, ousados ou inovadores.
Essa assimetria crítica revela um sistema simbólico de exclusão que posicionou as mulheres entre dois polos opostos — o do sexo e o da arte — raramente reconhecendo-as como sujeitos plenos da criação artística. As obras aqui reunidas enfrentam justamente esse impasse.
A partir das reflexões da filósofa Luce Irigaray (Blaton, Bélgica, 1930), a exposição evidencia como a cultura ocidental privilegia a forma sólida, estável e controlada, associada ao masculino, enquanto marginaliza o fluido, o ambíguo e o instável, tradicionalmente atribuídos ao feminino. Técnicas como manchas, vazamentos, diluições e instabilidades formais — centrais na poética de muitas artistas — foram, assim, vistas como carentes de rigor, como se apenas reiterassem estereótipos de emotividade e fragilidade.
Em Inconformadas, essas práticas são afirmadas não como falhas, mas como escolhas conscientes: estratégias que produzem afetos materiais e tensionam dicotomias como forma e informe, identidade e não identidade, representação e não representação. Seus gestos, longe de secundários, inscrevem experiências subjetivas e corporais na própria materialidade da obra.
A mostra propõe, portanto, que essas produções sejam vistas não como expressões de fragilidade, mas como práticas de resistência, que reivindicam o direito à forma fluida, ao gesto ambíguo e a uma materialidade capaz de desestabilizar hierarquias e modelos fixos de criação.
Suspensa no ar, a escultura têxtil de Renata Pedrosa parece flutuar entre o corpo e o casulo, entre a queda e a suspensão. A obra Por um fio carrega, já em seu título, a tensão entre contenção e colapso. Um tecido maleável envolve uma massa oculta, criando um volume que pendedo teto como um corpo que resiste ao peso, mas também se entrega a ele. A amarração na base, que aperta e estrangula, reforça a ideia de limite, de pressão, de sobrevivência — como se o gesto de pendurar fosse também o de manter viva uma forma prestes a se desfazer. A obra evoca a fragilidade não como fraqueza, mas como condição crítica. Sua forma mole, ambígua, silenciosa, rejeita qualquer estruturarígida ou narrativa fechada. Há algo de útero e de fardo, de abrigo e de prisão — e é justamente nessa indeterminação que reside sua força. Por um fio propõe uma poética da suspensão, em que o corpo não é estático nem contido, mas está sempre em risco. Um corpo inconformado que resiste pela torção, pela dobra, pelo gesto de se manter, ainda que por um fio.
Ana Avelar
A mostra parte de uma hipótese central: formas moles e fluidas, quando realizadas por mulheres, foram historicamente interpretadas como sinais de uma feminilidade negativa, associadas à fragilidade, à intuição e à falta de rigor, e, por isso, desvalorizadas. Já quando esses mesmos recursos aparecem na obra de artistas homens, costumam ser celebrados como poéticos, ousados ou inovadores.
Essa assimetria crítica revela um sistema simbólico de exclusão que posicionou as mulheres entre dois polos opostos — o do sexo e o da arte — raramente reconhecendo-as como sujeitos plenos da criação artística. As obras aqui reunidas enfrentam justamente esse impasse.
A partir das reflexões da filósofa Luce Irigaray (Blaton, Bélgica, 1930), a exposição evidencia como a cultura ocidental privilegia a forma sólida, estável e controlada, associada ao masculino, enquanto marginaliza o fluido, o ambíguo e o instável, tradicionalmente atribuídos ao feminino. Técnicas como manchas, vazamentos, diluições e instabilidades formais — centrais na poética de muitas artistas — foram, assim, vistas como carentes de rigor, como se apenas reiterassem estereótipos de emotividade e fragilidade.
Em Inconformadas, essas práticas são afirmadas não como falhas, mas como escolhas conscientes: estratégias que produzem afetos materiais e tensionam dicotomias como forma e informe, identidade e não identidade, representação e não representação. Seus gestos, longe de secundários, inscrevem experiências subjetivas e corporais na própria materialidade da obra.
A mostra propõe, portanto, que essas produções sejam vistas não como expressões de fragilidade, mas como práticas de resistência, que reivindicam o direito à forma fluida, ao gesto ambíguo e a uma materialidade capaz de desestabilizar hierarquias e modelos fixos de criação.
Suspensa no ar, a escultura têxtil de Renata Pedrosa parece flutuar entre o corpo e o casulo, entre a queda e a suspensão. A obra Por um fio carrega, já em seu título, a tensão entre contenção e colapso. Um tecido maleável envolve uma massa oculta, criando um volume que pendedo teto como um corpo que resiste ao peso, mas também se entrega a ele. A amarração na base, que aperta e estrangula, reforça a ideia de limite, de pressão, de sobrevivência — como se o gesto de pendurar fosse também o de manter viva uma forma prestes a se desfazer. A obra evoca a fragilidade não como fraqueza, mas como condição crítica. Sua forma mole, ambígua, silenciosa, rejeita qualquer estruturarígida ou narrativa fechada. Há algo de útero e de fardo, de abrigo e de prisão — e é justamente nessa indeterminação que reside sua força. Por um fio propõe uma poética da suspensão, em que o corpo não é estático nem contido, mas está sempre em risco. Um corpo inconformado que resiste pela torção, pela dobra, pelo gesto de se manter, ainda que por um fio.
Ana Avelar