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	<title>renatapedrosa</title>
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	<pubDate>Wed, 01 Apr 2026 15:12:40 +0000</pubDate>
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		<title>Inconformadas</title>
				
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		<pubDate>Wed, 01 Apr 2026 15:12:40 +0000</pubDate>

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	Inconformadas
2026
Galera Claraboia, São Paulo, SP
	Inconformadas apresenta na Claraboia obras de 24 artistas mulheres do período moderno e contemporâneo que encontraram na abstração um espaço de criação.A mostra parte de uma hipótese central: formas moles e fluidas, quando realizadas por mulheres, foram historicamente interpretadas como sinais de uma feminilidade negativa, associadas à fragilidade, à intuição e à falta de rigor, e, por isso, desvalorizadas. Já quando esses mesmos recursos aparecem na obra de artistas homens, costumam ser celebrados como poéticos, ousados ou inovadores.Essa assimetria crítica revela um sistema simbólico de exclusão que posicionou as mulheres entre dois polos opostos — o do sexo e o da arte — raramente reconhecendo-as como sujeitos plenos da criação artística. As obras aqui reunidas enfrentam justamente esse impasse.A partir das reflexões da filósofa Luce Irigaray (Blaton, Bélgica, 1930), a exposição evidencia como a cultura ocidental privilegia a forma sólida, estável e controlada, associada ao masculino, enquanto marginaliza o fluido, o ambíguo e o instável, tradicionalmente atribuídos ao feminino. Técnicas como manchas, vazamentos, diluições e instabilidades formais — centrais na poética de muitas artistas — foram, assim, vistas como carentes de rigor, como se apenas reiterassem estereótipos de emotividade e fragilidade.Em Inconformadas, essas práticas são afirmadas não como falhas, mas como escolhas conscientes: estratégias que produzem afetos materiais e tensionam dicotomias como forma e informe, identidade e não identidade, representação e não representação. Seus gestos, longe de secundários, inscrevem experiências subjetivas e corporais na própria materialidade da obra.A mostra propõe, portanto, que essas produções sejam vistas não como expressões de fragilidade, mas como práticas de resistência, que reivindicam o direito à forma fluida, ao gesto ambíguo e a uma materialidade capaz de desestabilizar hierarquias e modelos fixos de criação.Suspensa no ar, a escultura têxtil de Renata Pedrosa parece flutuar entre o corpo e o casulo, entre a queda e a suspensão. A obra Por um fio carrega, já em seu título, a tensão entre contenção e colapso. Um tecido maleável envolve uma massa oculta, criando um volume que pendedo teto como um corpo que resiste ao peso, mas também se entrega a ele. A amarração na base, que aperta e estrangula, reforça a ideia de limite, de pressão, de sobrevivência — como se o gesto de pendurar fosse também o de manter viva uma forma prestes a se desfazer. A obra evoca a fragilidade não como fraqueza, mas como condição crítica. Sua forma mole, ambígua, silenciosa, rejeita qualquer estruturarígida ou narrativa fechada. Há algo de útero e de fardo, de abrigo e de prisão — e é justamente nessa indeterminação que reside sua força. Por um fio propõe uma poética da suspensão, em que o corpo não é estático nem contido, mas está sempre em risco. Um corpo inconformado que resiste pela torção, pela dobra, pelo gesto de se manter, ainda que por um fio.
Ana Avelar

	Exposição coletiva

	
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	<item>
		<title>Cava decote gancho</title>
				
		<link>https://renatapedrosa.com.br/Cava-decote-gancho</link>

		<pubDate>Sat, 12 Jul 2025 22:45:10 +0000</pubDate>

		<dc:creator>renatapedrosa</dc:creator>

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		<description>
	Cava decote gancho
2025
Des_apê, São Paulo, SP
	Cava, decote e gancho, enlaçados pela arte de Renata Pedrosa
 A série de trabalhos realizada durante a pandemia pela artista Renata Pedrosa, nos apresenta um conjunto de traçados em diferentes cores, feitos com lápis e materiais de desenho e costura para moldes de roupas, que retomam a história da artista com sua mãe, exímia costureira, desde sua infância. Agora, a partir de sua experiência avançada como artista, ela nos surpreende com a possibilidade de reconhecer o sentido preciso do que nomeamos como reinvenção. O que antes foi vivido como participação e contribuição num trabalho à quatro mãos, é atualizado, pelo seu estilo, numa condição de redução dos elementos que compuseram sua história. Já não se trata mais de um trabalho com o objetivo de criação de moldes para a confecção das roupas. A artista opera uma decantação que a conduz aos traços delicados e trabalhosos sobre o papel, cujo produto final é um envoltório para o olhar.
Cava, decote e gancho vestem o olhar: pela fineza dos traços, pela evocação do tempo de trabalho dispendido, pela escolha sensível das cores, assim como, pelo convite que suscitam para se deixar conduzir pelo vazio central que habita cada um dos três. Isso porque, é uma série de trabalhos onde os traços organizam os contornos do corpo. Contudo, se trata de um corpo sem membros, não havendo o desenho de cabeças, braços, pernas, ombros, rostos, mãos, ou sexos... E é exatamente nesse ponto que encontramos a excelência do trabalho simbólico realizado pela artista, uma vez que o material que nos constitue como seres de linguagem, nos permite reconhecer a presença pela ausência. É como se ao olhar para cada um dos trabalhos dessa série, soubéssemos que eles se referem aos elementos que irão nos vestir, não mais como roupas, mas como traços que escrevem e antecipam partes de um corpo por vir. Trata-se, portanto, de uma série que escreve os traços da proto história do corpo, enlaçada pelas marcas dos moldes das vestimentas que um dia irão vesti-lo Existem três pontos constitutivos que merecem especial destaque, principalmente quando recordamos, pela iconografia religiosa, a presença da folha de parreira sobre os corpos de Adão e Eva, depois da expulsão do Paraíso. Constatamos que, pela história &#38;nbsp;cristã, o corpo é representado desde o início com uma presença encobridora, já que &#38;nbsp;se trata de não esquecer do pecado e da culpa por ter desobedecido a Deus e, por isso mesmo, ficar doravante suscetível às tentações e aos suplícios da carne. O que nos leva a admitir que na referência dessa tradição, a qual vai orientar decisivamente a representação imagética ocidental dos corpos, encobertos, ou expostos, irá sempre escapar a presença de um Outro corpo.
Existe uma questão, pouco notada, sobre o tipo de materialidade que se emprega, quando da representação dos corpos, pelas imagens. Não foram muitas, mas não deixaram de ser contundentes, as diferentes experiências que procuraram dar expressão à noção de corpo, sua representação em imagens, de uma forma em que não é coincidente a noção de corpo próprio. Trata-se, da tradição que integra o corpo sem órgãos, de Artaud, o corpo inominável e irrepresentável, de Beckett, a Metamorfose do corpo humano em barata, de Kafka, a mutação do corpo humano em rinoceronte, de Ionesco, os corpos dispersos nas fotografias e postais de Warburg, a experiência íntima com a barata, em Clarice Lispector. No conjunto desses autores, e alguns outros, pode-se reconhecer o desaparecimento da representação habitual do corpo, de forma assegurada. Quando a inconsistência, a mutação e o vazio comparecem como forma de dizer do que acontece com os corpos, é porque não existe mais representação sustentável deles.
Cada um dos autores, do teatro, e da Literatura, procuraram dizer desse Outro corpo, incluindo, por seus textos e experiência, o impossível de dizer dele. Impossível de dizer, segundo a forma pela qual o representamos habitualmente. A materialidade dessa representação de agora é constituída por uma condição simbólica que não se reduz ao sentido. Mais ainda, se trata de incluir nesse impossível da representação, uma forma de dizer em que a identificação se desfaz. Não há como manter uma identificação imaginária com uma barata ou um rinoceronte. Por isso mesmo, a sustentação de si mesmo cai, ou seja, participa-se do absurdo. Esse absurdo é a entrada em cena de uma relação que passa a se estabelecer entre o corpo do leitor e o corpo da barata. A noção de corpo se modifica pela leitura do texto. O surpreendente é constatar que alguns sujeitos compõem seus textos, de dentro dessa condição absurda de ruptura do sentido.
Consideremos que a mudança na noção de representação do corpo em imagens unificadas, para a presença dos corpos sem imagens, ou distorcidas, implica, em primeiro lugar, reconhecer que a imagem unificada não tem duração definitiva e assegurada. Caso contrário, não haveriam as experiências de despersonalização, de estranhamento e recusa do corpo próprio. Quando a imagem corporal, no sentido da imagem do corpo próprio é alterada de forma perturbadora, sem a decisão do sujeito, significa que existe alguma &#38;nbsp;causação inconsciente que se encontra em ação. Em Psicanálise, não se trata de encontrar os motivos, mas sim, de se virar com os acontecimentos. A experiência com o inconsciente nos ensina que não há nenhum sentido a ser revelado, mas o que importa, &#38;nbsp;é poder se virar com as marcas, com os traços que constituiram a história de cada um. E é exatamente nessa tradição que introduz a estruturação dos corpos pelos traços, e não mais pelas imagens, que a série Cava, decote e gancho participa.
O segundo ponto constitutivo dessa série, tem a ver com a função que ocupa o vazio como ponto organizador do quadro. Por um lado, encontramos o vazio como sinonimo dos diferentes espaços deixados em branco. Eles cumprem a função de organizar o olhar através dos traçados que se distribuem pela folha de papel. Esse mesmo vazio é o que vai permitir que o desenho se torne quadro, ou seja, ele enquadra o olhar em direção ao corpo. Corpo, esse, sem o desenho das partes que o compõem: braço, perna, rosto....Trata-se, portanto, do lugar central do vazio da representação. Vazio da representação do corpo em imagens, vazio da noção de vestimenta, pelos traçados dos moldes que irão compô-las, e vazio de uma história contada agora pela obra da artista, durante o vazio da pandemia.
A possibilidade de incluir o vazio, pelo traço, é o que vai permitir aproximar os diferentes traçados dessa série, numa ligação com o que se visa, no extremo, pela arte da caligrafia chinesa e árabe. Nelas, a arte se encontra na expressão do vazio do traço, sua marca, &#38;nbsp;desde o gesto que lhe dá origem, depois de muitos e muitos traços traçados. Não estamos longe de poder reconhecer que os desenhos e traçados infantis não coincidem com o que se recolhe nessa série, contudo, seria excessivo não dar o devido lugar a experiência da artista com o trabalho que avançou dos traçados infantis, até o cultivo e a dedicação minuciosa dos traços, pela arte.
Afirmei no início que a série, Cava, decote e gancho, veste o olhar, o enquadra. Ao mesmo tempo, ela tambem causa o olhar. Ela causa para olhar os detalhes dos traços, ela causa pela interrogação que suscita: são moldes de costura, é isso mesmo? É portanto, uma série que veste o olhar e o despe de sentido, ao mesmo tempo, refazendo-o pelo acompanhamento dos detalhes. Nesse sentido, somos convidados, a um só tempo, em nos despir e nos reencontrar. Num momento histórico em que o olhar é incessantemente conduzido por vozes que impõem adesão, visibilidade e conquistas, o chamado aos traços cumpre uma função política. Política da escrita. Religando cada um com o que é mais constitutivo, cultivam-se as condições para investir na vida através da insistência na sustentação do humano. Humanidade, essa, cada vez mais difícil de ser traçada pela arte, que não seja pelos seus restos.
Um dos elementos que diferenciam uma obra de arte, é o desejo que despertam para que as olhemos, de tempos em tempos, tendo o prazer de perceber detalhes já vistos, tanto quanto de outros que nos surpreendem. 
Mauro Mendes Dias 

	Exposição individual
	
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	<item>
		<title>Fulminantes</title>
				
		<link>https://renatapedrosa.com.br/Fulminantes</link>

		<pubDate>Wed, 11 Sep 2024 20:01:09 +0000</pubDate>

		<dc:creator>renatapedrosa</dc:creator>

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	Fulminantes
2024
ArteFASAM Galeria, São Paulo, SP
	A escritora Ursula Le Guin constrói uma história da origem da ficção tendo a bolsa como ferramenta principal da evolução narrativa do romance. A bolsa, que serve ao coletar e ao guardar como verbos de ação por excelência, transforma a história da vida contada. Longe do herói, sem o osso ou qualquer outro instrumento longo e pontiagudo, excluem-se verbos associados à dominação como o lutar, o conquistar e o matar.Dado que a forma da bolsa, da coisa que contêm coisas, emula a forma de órgãos humanos e não humanos que servem função semelhante – o útero, a concha, a fava – proponho que esta sirva de elemento simbólico para pensarmos as obras desta exposição. Lembremos ainda que as bolsas possuem uma forma de “saco” e que, visualmente, esse contentor se parece com tantos outros alimentos, plantas, órgãos (por isso bolsas e sacos são termos utilizados para denominar aspectos internos dos corpos).Nesta mostra, pinturas, cerâmicas, esculturas, objetos e instalações endereçam corpos humanos e não humanos e suas relações com o entorno, com os tempos e narrativas, com o sexo, com o fazer e o criar. Por vezes, os fragmentos desses corpos geram uma abstração das formas – quase não entendemos o seio ou a mão, descolados do corpo, solitários. Em outras situações, fragmentos e pedaços são reunidos num todo, mesmo que estranho, porém passível de ser compreendido como um ser único.Essas obras não são apenas intelectualmente provocadoras, mas sensivelmente impactantes, uma vez percebidas pelo tato ótico que nos permite entender aquilo que é mole, macio e tenro. Conseguimos compreendê-las pelo nosso repertório sensível-intuitivo, que conhece essa aparência pelas sensações e experiências que temos ao viver.Julia Pereira, que me convidou para curar esta exposição, gestualiza cromaticamente corpos e paisagens num processo de identificação entre elementos visualmente semelhantes que geram direções e sentidos para o pincel. Ana Kesselring separa, agrupa e modela pedaços femininos, corais, conchas e restos de animas, distribuindo-os pelas paredes, às vezes como barrigas prenhas, às vezes como colunas evocativas de vestígios arqueológicos pertencentes a civilizações matriarcais. A partir da série “Psicofísicos”, Dora Smék investiga a conexão entre elementos psicológicos e a fisicalidade visceral da anatomia humana, a partir de uma pesquisa dos Testes de Rorschach, cujas imagens se aproximam da anatomia de ossos humanos. Juliana Cerqueira Leite manipula um filme de slides em “Dobra”, cujo resultado são planos azuis com registros confusos dos gestos que produziram o objeto, indicando como o processo de fatura é complexo, variado e diverso. Mariana Manhães reúne bolsas rosas, amarelas e beges preenchidas por espuma e espuma de poliuretano associando-as a um vídeo de animação protagonizado por um ser simpático, mesmo que enigmático, que ganham vida ao chacoalhar um rabo de cascavel. Por fim, Renata Pedrosa costura tecidos macios (como peles de animais), espicha-os e pendura-os, recheia-os ou não, como se fossem meio-móbiles e meio-brinquedos.Assim, “Fulminantes” é uma exposição com obras de artistas mulheres que manipulam formas orgânicas, cor e materiais gerando objetos-corpos e imagens-corpos. Nelas, o gesto articula pedaços e cria entes de tecido, barro, tinta, luz. Fulminar diz respeito a lançar raios ou a destruir, mas, metaforicamente, também pode significar algo que provoca fortes emoções, sem avisos previamente dados. Remetendo a algo que toma o corpo como uma convulsão, o termo pode ser utilizado para endereçar eventos sublimes da vida, como o nascer e o morrer.Voltando às palavras de Le Guin a “bolsa/ barriga/ caixa/ casa/ patuá”, essa coisa que contém coisas e nos auxilia a conhecer, criar, cuidar, construir, digerir, parece ser levada em conta pelas artistas desta exposição. É por meio de uma “bolsa de cultura” que Pereira, Smék, Leite, Kesselring, Manhães e Pedrosa produzem arte ao selecionar e agrupar elementos do corpo e do mundo que, juntos, originam objetos ou entes independentes. Estes se voltam a nós, provocando nosso sentido ótico-tátil, estimulando sensações na pele e memórias imaginadas na mente.
Ana Avelar

	Exposição coletiva

	
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	<item>
		<title>Métrica Imprecisa</title>
				
		<link>https://renatapedrosa.com.br/Metrica-Imprecisa</link>

		<pubDate>Tue, 29 Aug 2023 12:37:02 +0000</pubDate>

		<dc:creator>renatapedrosa</dc:creator>

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	Métrica Imprecisa
2023
Casa da Cultura do Parque, São Paulo, SP
	
Atualmente, pode-se dizer que já é tradição do pensamento sobre arte brasileira a ideia de uma “geometria sensível”, que aceita arestas adocicadas, a presença da mão que distorce ou hesita e a frouxidão da estrutura. Sua presença foi até mesmo observada por comentadores na arte colonial, sendo que, assim, essa geometria passava a oferecer um lastro para a arte produzida no período moderno e no atual. Em outras palavras, nossa crítica de arte encontrou uma geometria intuitiva em diversos períodos da produção artística, como se constituísse mesmo um traço construtivo específico e característico. O termo é histórico, tendo sido utilizado para caracterizar uma geometria intuitiva vista como dominante em toda América Latina, a partir da segunda metade do século XX. Entre os intérpretes brasileiros que mais exploraram essa ideia, destaca-se o crítico Roberto Pontual, que fez uso do termo para designar a abstração geométrica latino-americana presente numa exposição homônima realizada em 1978, pela qual foi responsável.Para Pontual, a “geometria sensível” reunia opostos apenas aparentemente inconciliáveis: “geometria supõe cálculo, frieza, determinação, rigor, exercício da razão; sensível sugere imprevisibilidade, animação, alternância, indeterminação, prática intuitiva”. Entretanto, destaca que “essas polaridades jamais se projetam com absoluta nitidez e pureza na obra de arte, e, segundo, que nada prova a superioridade imanente de um caminho sobre o outro”. Sendo a "sensível" uma das vias da geometria, a outra seria a “programada”[1] .Nesse sentido, esse construtivismo tipicamente latino-americano, como defendia Pontual, tornou-se compreensão difundida, orientando o pensamento sobre arte latino-americana desenvolvido em torno da arte contemporânea. Nesta exposição, a métrica imprecisa surge simbólica, admitindo narrativas negadas pelo formalismo. Vejo a geometria recolhida da vida; o que muda é a presença de conteúdos sensíveis ou conceituais a partir do construtivo.Emprestando a ideia do filósofo Ernst Cassirer, de que, como forma simbólica, a arte revela a realidade e não a imita[2], nesta exposição encontram-se quatro artistas costurados pela geometria de suas pesquisas; no entanto, é pela estratégia do uso simbólico das formas que este grupo se articula internamente. Ana Mazzei reúne animal e arquitetura, ambos em sua fragilidade material e sutileza formal. Faltam arestas para completar os quadrados, que me levam a imaginar a serpente rastejando nessa virtualidade espacial. Ao mesmo tempo, é plausível a leitura da cobra como signo da regeneração, ao ser associada ao deus Asclepius, imagem aliás emprestada pela área médica. Na Grécia Antiga, acreditava-se que cobras habitavam o labirinto do templo de Epidaurus, principal local de atendimento, tanto espiritual como médico, de fiéis. Nesse contexto, o animal adquire um sentido positivo associado à sugestão de profecias relativas à cura, que vinham aos enfermos por meio de sonhos. Aliás, ex-votos de partes enfermas do corpo eram deixados no templo, guiando-nos à entrada para a pesquisa de outra artista da mostra, Renata Pedrosa.Pedrosa investiga a relação entre nosso corpo e o ambiente, seja em situações individuais ou coletivas. Essa pesquisa arquitetônica, corpo-construção, pode mostrar-se sob a forma de uma cruz de tecido com uma pedra que parece pesar sobre ela, mas que, se olhada de perto, revela ser papel e grafite. Sob a cruz, vaza o carvão, naquilo que traz do vestígio da queima da madeira o mesmo material reconhecidamente utilizado na manufatura de cruzes. Não me esqueço ainda de que o carvão filtra e absorve impurezas. Em outro trabalho, a construção é semelhante — um objeto-casa de brinquedo parece pesar sobre um retalho de tecido. Em ambos, canutilhos bordados destacam as bordas do tecido, trazendo-o para um lugar da intimidade. O fio que os trabalhos de Pedrosa, esticam-se em linhas paralelas do “Quadro duplo reflexivo”, de Débora Bolsoni. De mesma espessura, mas em diferentes comprimentos, as linhas projetam sombras, criando objetos virtuais. Títulos são relevantes nas obras de Bolsoni porque a artista opera jogos de sentido pela linguagem e pela forma. Assim, em “Body”, uma forma sextavada metade grade dourada, metade areia, recebe margens sutis da cor rosa que sugerem aquelas dedicadas a esportes coletivos nas praias brasileiras. O corpo está ali, entre os portões dos edifícios de Ipanema e o mar, habitando entre as desigualdades urbanas. É pelo rosa que chegamos às bandeiras latino-americanas e caribenhas inventadas pelo artista guatemalteco Esvin Alarcón Lam. A codificação cromática de gênero – representada principalmente pela oposição entre rosa e azul – implicava numa divisão social binária, já denunciada por movimentos feministas e queer, entre as décadas de 1960 e 1970. Como se sabe, a apropriação da cor rosa pelos movimentos LGBTQIA+ visou uma forma de resistência a essa divisão, dado que a cor foi utilizada pelo nazismo para distinguir prisioneiros no campo de concentração. “Amarica” era o título da primeira instalação com as bandeiras rosa, que propunha subverter as identidades nacionais totalizadoras e excludentes no continente; a bandeira estadunidense completava a série. Nesta mostra, Lam restabelece sua pesquisa sobre identidades americanas contemporâneas, adicionando ainda outros geometrismos como estampas simbólicas.É nessa perspectiva construtiva — um termo que nos aproxima da arquitetura rigorosa em sua ortogonalidade — e, ao mesmo tempo, inexata, instável, inabsoluta na realidade social de nossos espaços de vida, que esta exposição ganha corpo. Não gratuitamente lanço mão do termo “forma” diversas vezes ao longo do texto — a forma é corpo, a construção é sociedade. Quando o construtivismo se aproximou da máquina, a ponto de esquecer-se da mão, resultou ultrapassado. A arte contemporânea devolveu à geometria um sentido simbólico diferente, mas também familiar àquele que guardava a magia e o encantamento em suas versões originárias e arcaicas[3]. Nesse sentido, a figura simbólica de Torres García defendeu a geometria intuitiva na América Latina como via de integração das culturas locais. Nas métricas imprecisas, há espaço para réguas singulares e heterogêneas, frequentemente contemplando conteúdos intelectuais ou sensíveis. Animal symbolicum, nas palavras de Cassirer, somos nós diante do mundo e seus fenômenos.

Ana Avelar

[1]&#38;nbsp; PONTUAL, Roberto. “Do mundo, a América Latina. Entre as geometrias, a sensível”. In: América Latina: Geometria Sensível. Rio de Janeiro: Edições Jornal do Brasil, 1978, p.8-9.
[2]&#38;nbsp;FURLANETTO, Beatriz Helena. “A Arte como Forma Simbólica”, Revista Científica / FAP, Curitiba, v. 9, p. 36-50, jan./jun. 2012.
[3]&#38;nbsp;GELL, Alfred. “The technology of enchantment and the enchantment of technology”. In: COOTE, Jeremy (org.). Anthropology, Art, and Aesthetics. Oxford: Clarendon Press, 1994.
	Exposição coletiva

	
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		<title>Pensamentos sobre arte</title>
				
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		<pubDate>Sun, 03 Sep 2023 02:05:15 +0000</pubDate>

		<dc:creator>renatapedrosa</dc:creator>

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	Pensamentos sobre arte
2023
Lux Espaço de Arte, São Paulo, SP
	

	Exposição coletiva
	
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	<item>
		<title>Pedra Terra Prata</title>
				
		<link>https://renatapedrosa.com.br/Pedra-Terra-Prata</link>

		<pubDate>Tue, 29 Aug 2023 13:22:18 +0000</pubDate>

		<dc:creator>renatapedrosa</dc:creator>

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	Pedra Terra Prata
2022
Massapê Projetos, São Paulo, SP
	
com Laila TerraA “Terra da Garoa” já não faz jus à alcunha – se solidifica cada vez mais como “selva de pedra” (des)montada em fragmentos de asfalto, tijolo, poluição e violência. “Aqui tudo parece que era ainda construção, mas já é ruína”, expressou, acertadamente, Caetano. Cada novo empreendimento imobiliário, com sua promessa de melhoria para poucos, deixa um rastro (especialmente nas regiões mais valorizadas pelas construtoras) de desigualdade e gentrificação, somando-se às outras mazelas crônicas da cidade. Em contraposição, esta metrópole problemática suscita poéticas - a arte, sempre atenta ao que se dá no espaço-tempo da vida vivida, se contamina, deglute e devolve formas, provocação e, também (desde que nos deixemos afetar), deleite. Da pedra, da terra e da prata pode-se fazer a guerra, o isolamento ou a desigualdade, mas também a ponte, o alimento e a joia.
Massapê é terra fértil para o desenvolvimento de culturas que, no campo, produzem alimentos e aqui, neste celeiro urbano de projetos artísticos, nutrem o intelecto. Nas imediações, fervilham bares, lojas e oficinas e circulam os mais variados tipos de pessoas. Neste espaço aberto para a rua, Renata Pedrosa instala seu radar, que tanto capta o fora, como amplifica o que se cria do lado de dentro, convidando a trocas desierarquizadas de saberes. Laila Terra constrói sua rampa ancorada pela taipa, tão característica dos modos construtivos tradicionais do território local e que foi substituída por sistemas massificados, massacrantes e excludentes. Em trabalho conjunto, reúnem lambes com imagens de pedras (que tendemos a imaginar como imutáveis e, portanto, conhecíveis) e grafismos que não podemos decifrar – um arranjo paradoxal, como São Paulo.
Renata investiga os fluxos do espaço público e os comportamentos dos grupos sociais por uma perspectiva sagaz, traduzindo suas inquietações em desenhos expandidos para diferentes linguagens. Do carvão à cerâmica, das instalações com materiais moles à videoarte, arquiteta composições conceitualmente complexas e formalmente elegantes. Há muito mais camadas de significado em seus trabalhos do que pode parecer à primeira visada.
Para Laila, o processo criativo é a própria obra. Embora parta de um sólido arcabouço teórico, é no fazer que ela exercita as possibilidades de materialização de ideias, levando em conta os fluxos de obtenção dos materiais e mesmo as relações com outros profissionais direta ou indiretamente envolvidos no resultado.
Ambas enxergam o ofício de artista como indissociável de suas realidades, não apenas como indivíduos, mas também dentro do contexto histórico, político e social no qual estão inseridas. A atenção às dinâmicas da vida é permanente e é com este pensamento sistêmico, aliado a suas preocupações com temas que lhes são caros, como a emergência climática, as desigualdades sociais, a ascensão de ideologias autoritárias e violências raciais e de gênero que elas se conduzem. Seus trabalhos são apenas um lembrete tangível de pesquisas e ações que são alavancadas por e destinadas ao que se dá do lado de fora do sistema da arte. É na rua que toda mudança começa.

Sylvia Werneck
	Exposição em dupla
	
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	<item>
		<title>Vou te mostrar o caminho do inferno para que você possa se desviar dele</title>
				
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		<pubDate>Fri, 01 Sep 2023 20:25:27 +0000</pubDate>

		<dc:creator>renatapedrosa</dc:creator>

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		<description>
	Vou te mostrar o caminho do inferno para que você possa se desviar dele
2022
Galeria Galeria Archidy Picado, Espaço Culural José Lins do Rego, João Pessoa, PB
	
A exposição reúne quatro artistas de duas gerações diferentes, cujas obras se colocam em comunicação em torno do tema do fim dos tempos. Os trabalhos, em diferentes linguagens que vão do desenho à pintura, instalação, performance e tecnologia, oferecem a oportunidade de refletirmos sobre os rumos que nossa civilização vem tomando desde muito tempo, com evidentes perigos à sobrevivência da própria espécie humana.Além da variedade de perspectivas e linguagens apresentadas pelos artistas, a troca entre diferentes gerações enriquece as interpretações sobre nosso modo de vida, pois cada etapa da jornada experimentada dota a produção criativa de olhares diferentes – as obras escolhidas “falam” não apenas da iminência de um apocalipse, como também das interações entre homem e natureza, ciclos de construção e destruição, diferentes narrativas e relações de domínio e submissão.Há tempos o mundo discute a maneira como a civilização se utiliza dos recursos naturais para a manutenção de nosso modo de existir. Os confortos da vida hodierna são obtidos às custas do esgotamento de elementos que são, eles mesmos, essenciais para a sobrevivência, entre os quais destaca-se a água, o mais crucial deles. Ambientalistas vêm, há décadas, alertando contra o abuso do planeta, rechaçando até o termo “recursos”, que carrega em si um caráter utilitário a serviço da humanidade, considerada assim como uma forma de vida à qual todas as outras devem se submeter. A emergência climática se mostra evidente e mensurável, levando à busca por alternativas de existência menos danosas. Haverá tempo? Numa análise mais profunda, podemos perceber que um determinado modo de vida não nasce naturalmente, mas é construído paulatinamente por meio de escolhas que fundam narrativas. O que chamamos de história é, em última instância, uma coletânea de narrativas hegemônicas que, quase sempre por estratégias violentas, se sobrepõem a outras. Por trás de qualquer ação humana existe um discurso. Por trás de todo discurso, interesses.As obras escolhidas para a proposta desta ocupação provocam reflexões acerca do fim dos tempos em seus diversos aspectos – o descompasso entre o ciclo geológico do planeta e o da humanidade, os discursos que impomos e as distopias que advêm deles, os movimentos alternados entre criação e destruição, morte e renovação. Em termos de materialidade, estão representados os reinos animal, vegetal e mineral.

Sylvia Werneck
	Exposição coletiva

	
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	<item>
		<title>Explendor</title>
				
		<link>https://renatapedrosa.com.br/Explendor</link>

		<pubDate>Sun, 03 Sep 2023 01:22:17 +0000</pubDate>

		<dc:creator>renatapedrosa</dc:creator>

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		<description>
	Explendor
2021
Rua Mário, São Paulo, SP
	
com Wallace Masuko
	Exposição individual
	
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	<item>
		<title>Sobras</title>
				
		<link>https://renatapedrosa.com.br/Sobras-1</link>

		<pubDate>Sun, 27 Aug 2023 13:53:48 +0000</pubDate>

		<dc:creator>renatapedrosa</dc:creator>

		<guid isPermaLink="true">https://renatapedrosa.com.br/Sobras-1</guid>

		<description>
	Sobras
2019
Centro Cultural Barco, São Paulo, SP
	
O trabalho Sobras teve inicio com a exploração das ruínas industriais da Zona Leste de São Paulo. A ideia era buscar o resto, a sobra, o refugo das fábricas. A presença de vedações em grande parte das janelas das ruínas fabris indicou para uma associação formal entre fábrica e presídio. Iniciei com registros em vídeo digital, com enquadramento frontal, das janelas das fábricas. Posteriormente, tais imagens foram montadas em ordem aleatória em um programa de edição e depois registradas por um processo de gravação de tela. Durante esta gravação, a timelinedo programa de edição foi ora acelerado, ora desacelerado, criando variações no ritmo da sequência de janelas, intercaladas por imagens estáticas de arames farpados. Para enfatizar a associação entre fábrica e presídio, acrescentei a narração de um trecho do livro Os afogados e os sobreviventesde Primo Levi. O trecho escolhido discorre sobre o choque do ingresso dos prisioneiros em Auschwitze sobre o fenômeno intitulado pelo autor de “zona cinzenta”, uma zona de inter-relações com contornos mal definidos, que ao mesmo tempo separa e une os senhores e os escravos. Para incluir uma reflexão sobre as condições de trabalho implícitas na relação senhor X escravo, busquei referir ao trabalhador precarizado dos tempos atuais e sua servidão indefinida. Recorri a um dramaturgo que conhece bem o desespero do homem moderno: Samuel Beckett. Escolhi a pantomima Atos sem Palavras II que explora uma dimensão interna do homem, o fato dele ser impelido por uma força compulsiva que nunca o deixará muito tempo na inação. Adaptei a pantomima de Beckett para uma ação que foi registrada com câmera de vídeo digital em duas tomadas, uma em grande plano e plano detalhe e outra em plano médio e em p&#38;amp;b, simulando o ponto de vista de uma câmera de vigilância.A associação dos três vídeos compõe o trabalho: as imagens das janelas arruinadas, com a narração entrecortada do ritual de entrada no campo de concentração, são apresentadas ao lado da representação da rotina diária de um trabalhador; ao mesmo tempo que, num monitor de 10 polegadas, o mesmo trabalhador é visto a distância. Assim articulados, expõem o deslocamento do trabalhador assalariado e controlado no interior das fábricas para o trabalhador precarizado, autogerido e monitorado, expondo as transformações nas relações do trabalho em tempos de capitalismo financeiro.

Renata Pedrosa
	Exposição individual
	
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		<title>Lampejo</title>
				
		<link>https://renatapedrosa.com.br/Lampejo-1</link>

		<pubDate>Sun, 27 Aug 2023 13:53:47 +0000</pubDate>

		<dc:creator>renatapedrosa</dc:creator>

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	Lampejo
2019
Galeria Virgilio, São Paulo, SP
	
Claudio Matsuno e Renata Pedrosa
Curadoria Leandro Muniz

Leandro Muniz - Gostaria de começar perguntando de onde veio a ideia para esta exposição.
Renata Pedrosa - Da minha parte, veio do desejo de criar uma situação diferente das experiências anteriores de exposições individuais na Virgílio; que desta vez a exposição proporcionasse encontros e trocas, como o que está acontecendo aqui agora.
Claudio Matsuno - Durante uma conversa com a Renata, ela sugeriu apresentar duas individuais simultâneas no mesmo espaço e aceitei na hora. Gosto dessa ideia de experimentar outras possibilidades e sair da zona de conforto ao encarar o espaço expositivo em conjunto.
LM - Uma das propostas é sublinhar que se trata de uma exposição em dupla ou de duas individuais simultâneas pensadas para o mesmo lugar. Isto fica claro na decisão de mostrar os trabalhos em cantos opostos da galeria, enfatizando as duas colunas que dividem o espaço, ao construir um banco que é ao mesmo tempo um objeto funcional e um elemento que reitera a ideia de diálogo. Além de trabalhos recentes, também propomos mostrar obras de outros períodos da produção de vocês. Gostaria que vocês comentassem o interesse por manter essas decisões.
RP - Gosto da ideia de criar uma diagonal no espaço e também da concentração de materiais em pontos específicos da sala. Mostrar obras de outros períodos é algo incomum para exposições individuais em galerias - geralmente mostra-se o que há de mais recente na produção dos artistas -, mas é uma questão que surgiu em nossas conversas e isso proporcionou uma revisão do meu percurso.
CM - Eu já havia pensado em mostrar trabalhos anteriores de cinco, dez ou quinze anos atrás ao lado de outros recentes. Para mim, esse tempo que parece longo, na verdade é curto dentro do processo de trabalho e até insuficiente para destacar uma mudança de postura efetiva dentro da produção. Embora meus trabalhos tenham formalizações muito distintas, me interessa sobretudo procurar pontos em comum entre os antigos e os novos. Agora, em companhia de outra artista no mesmo espaço, são possíveis outras leituras e discussões que, talvez, individualmente não fossem tão claras.
LM - A forma atomizada de expor os trabalhos na parede, além do título da mostra e da imagem usada na divulgação reforçam a sensação e a ideia de dispersão, que também parece ser um modus operandino trabalho de vocês - há uma diversidade grande de materiais e procedimentos ao longo do tempo, sem necessariamente uma continuidade direta entre um trabalho e outro, além disso, são recorrentes formas que sugerem dispersão em ambas as práticas. Como vocês pensam a ideia de dispersão em suas práticas em relação ao modo como os trabalhos são dispostos nesta exposição?
RP -Já havia comentado anteriormente sobre o interesse tanto nos aspectos propositivos da experiência de dispersão - experimentação, descoberta, devaneio - quanto naqueles que podem ser contra produtivos - falta de foco, incapacidade de concentração etc.(1) A ideia de dispersão me auxiliou no entendimento de questões sobre meu processo como a simultaneidade da representação e da apresentação; como o que faço hoje conecta-se com minha produção de há vinte anos atrás; dúvidas e incertezas que persistem ao longo do tempo; como o desejo de fazer está sempre intercalado por questionamentos sobre porque fazer; e como as mesmas ideias podem se manifestar em diversas linguagens e materiais.
CM - Eu procuro trabalhar com materiais com os quais nos deparamos no dia a dia. Meu ateliê é no centro de São Paulo e uso uma série de objetos apropriados ou comprados naquela região. A variedade de estímulos na cidade, gera uma experiência dispersiva que é, de algum modo, replicada no trabalho.
LM - Ambas as produções lidam com desdobramentos de uma ideia geral de “desenho” - seja o modo como o Cláudio dispõe objetos apropriados e assemblagesna parede ou nas formas orgânicas dos trabalhos em tecido da Renata, que sugerem um efeito gráfico pelo contraste entre os diversos tons de preto em relação ao branco da parede. Em ambos, um pensamento sobre a forma e a linha - que é a oposição clássica do desenho em relação à cor, embora isso possa ser facilmente contestado - parece predominar. Como vocês pensam o desenho em relação aos diversos materiais e procedimentos dos trabalhos?
RP - O desenho está presente do começo ao fim, seja o desenho como tentativa de materialização de acontecimentos sociais - como as transformações na ocupação da cidade - ou o desenho para além do lápis sobre o papel, como índice da ação humana - que pode ir de uma pegada na areia à marca de um corpo no lençol da cama - os rastros que são deixados pelos movimentos empreendidos pelas construções manuais.Essa pergunta me lembrou de um trecho do texto "Desenho e emancipação" de Flávio Motta: "Bem sabemos que a palavra 'desenho' tem, originariamente, um compromisso com a palavra 'desígnio'. Ambas se identificavam. Na medida em que restabelecermos, efetivamente, os vínculos entre as duas palavras, estaremos também recuperando a capacidade de influir no rumo do nosso viver. Assim, o desenho se aproximará da noção de Projeto (pro-jet), de uma espécie de lançar-se para a frente, incessantemente, movido por uma 'preocupação'". Me interessa, sobretudo, essa ideia de lançar-se para frente, incessantemente, movido por uma "preocupação" pois é assim que entendo o processo de produção dos trabalhos.
CM - Desde os primeiros trabalhos até hoje, o desenho e a pintura são os centros da minha produção. A maneira de apresentar pode sofrer alguma mudança, mas eles estão sempre lá, talvez não no sentido tradicional, mas quando desenvolvo trabalhos que envolvem objetos simples como cadarços, restos de calçados ou papelão, existe um pensamento intenso do desenho e de pintura, por serem composições que movimentam formas, cores e linhas articuladas por um pensamento plástico.
LM - A precariedade dos materiais é um ponto comum entre os trabalhos. Isso pode ser um aspecto propositivo, se pensarmos em um sentido de do it yourselfem que você trabalha com o que tem independentemente da situação, mas também pode ser problemático, se pensarmos na “estetização” e no “elogio” da precariedade. Como vocês pensam isso tanto em relação ao contexto da arte quanto do mundo atualmente?
RP - O sentido de "faça você mesmo" é o de transformar a matéria com as próprias mãos; experimentar, hesitar, fazer e desfazer; entrar num embate com o material sem estar certo do resultado. Para isso, escolho materiais que se prestam à manipulação e transformação mais direta, sem muitas exigências tecnológicas. Sem dúvida existe aí um risco de elogio à precariedade, uma reificação, mas isso é inerente a qualquer tentativa de denúncia de um dado estado: ao se "performar" o que se denuncia acaba-se por afirmar o que se busca negar.
CM - Eu tento não hierarquizar os materiais com os quais vou trabalhar, tentando, de algum modo, manipular uma bexiga ou uma moldura como se fossem cores e linhas, independentemente do valor desses materiais.Se um artista tem um ateliê com o espaço limitado, ele vai procurar se adaptar a ele para construir suas ideias e o mesmo acontece com o uso dos materiais. Creio que o artista trabalha com o que se depara, antes de qualquer outra coisa.
LM - Outro assunto que me chama a atenção na relação entre suas produções é a cidade - no trabalho da Renata como representação e no do Cláudio como resíduo. Vocês poderiam comentar a relação entre cidade x representação e cidade x resíduo?
RP - Tenho muito interesse pelas formas de representação da cidade. Por exemplo, os trabalhos da série "Arquiteturas Distópicas", presentes nesta exposição, têm como ponto de partida a imagem da capa do livro "Delirious New York" de Rem Koolhaas .Naquela imagem me chamou a atenção, sobretudo, o antropomorfismo dos ícones arquitetônicos, algo que busquei levar para os trabalhos. Não é a primeira vez que estabeleço uma relação entre edifícios ou imagens icônicas de NY e SP: no trabalho "Estaiada" (2012) criei uma justaposição entre um vídeo que mostra a sobreposição de desenhos da Ponte Octavio Frias de Oliveira e trechos da reconstituição da travessia de Philippe Petit numa corda bamba esticada entre as torres gêmeas do World Trade Center em 1974. Naquele momento, mais do que a associação formal entre as linhas do desenho da ponte e a corda do equilibrista, me interessava confrontar imagens espetaculares de ambos os cenários.
CM - Como comentei anteriormente, o que me chega em mãos vem da cidade, onde vivo e tenho minhas atividades. O trabalho teria outra “personalidade” se eu morasse num sítio ou na praia. O entorno é uma ferramenta do artista, a experiência gerada seja numa pintura ou numa instalação carrega, de algum modo, esse "reflexo" do momento e do lugar onde o artista vive e desenvolve sua produção.
(1) Em troca de e-mails no processo de construção da mostra.
Janeiro / fevereiro de 2019
	Exposição em dupla
	
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