Heranças Contemporâneas III
1999
Museu de Arte Contemporânea da USP no Ibirapuera, São Paulo, SP
Histórias do Corpo e Fantasmáticas do Desejo

O nome Tunga vem do apelido que o irmão, Gonçalo, um ano mais velho, encontrou para simplificar o nome do caçula, batizado como Antonio José de Barros de Carvalho e Mello Mourão (Rio de Janeiro/Palmares, PE, 1952). Ele próprio um herdeiro de Lygia Clark, T unga expande as proposições da artista sobre a mescla arte/ vida e sobre a desfetichização da obra de arte. Liberta a criação de seus corpos físicos e a introduz em um mundo etéreo e bizarro, cheio de narrativas com entremeados significados. Na arte e na vida, Tunga circula naturalmente por universos aparentemente opostos e faz dessas oposições uma força que imanta seus trabalhos. A obra de Tunga é invariavelmente um campo magnético. O artista constrói uma nova mitologia, ou uma constelação de histórias, que ganham tratamentos contemporâneos e surreais e, ao mesmo tempo, épicos, focando invariavelmente no corpo e em suas possibilidades, nos circuitos sensoriais e magnéticos, nas energias que emana da vida. O desejo e suas múltiplas máscaras sensoriais formam o corpo do trabalho de Tunga marcado por imagens inesquecíveis. Há gêmeas, entrelaçadas por cabelos que escorrem no chão, que se tornam "xipófogas capilares". Há "vasos comunicantes", enormes estruturas, feitas de chumbo ou cobre, sim­bolizando o confronto entre masculino/feminino. Há longos fios de latão, formando uma cabeleira gigantesca, anteparada por um pente, tranças gigantes ou tacapes feitos de fios de chumbo. Há pequenos cálices e jarros de barro, pintados com maquiagem feminina, particularmente batom e ba­se, formando a série Lips (Lábios). Há ainda tubos de vidro quebrado, "enfeitados" por estruturas cujo desenho é estruturado pela atração de um ímã em um campo magnético recheado por limalha de ferro. Ou há ainda performances, envolvendo uma cobra viva, colocada sobre o chão, no local do órgão sexual de um homem, desenhado com tinta acrílica, e uma aranha, engolida, no processo, pela cobra. "O campo de ação do meu trabalho é o desejo", declarou, ao começar a criar, no início dos anos 70. "Meus trabalhos são baseados na relação entre matérias, energias, coisas físicas e minha fantasmática pessoal. Não me preocupo em extrair as qualidades estéticas das matérias usadas. Elas me importam apenas enquanto servem para reproduzir mecanismos de tensão e explosão, análogos ao modo de operar do desejo", diz o artista. O caos dá lugar à descoberta de uma ordem interna e sutil que orquestra seus trabalhos, que sempre carregam em si um pensamento ritualístico. Suas criações, que mesclam instalações realizadas em movimento, em performance, foram batizadas por ele com o termo instauração, utilizado particularmente a partir de meados dos anos 90. O artista nasceu e vive no Rio de Janeiro, apesar de ter sido registrado na cidade de Palmares, em Pernambuco, decisão do pai, que queria homenagear a herança nordestina da família Mello Mourão. Tunga convive com intelectuais e figuras de classes abastadas desde a infância, frequentando a mansão no bairro do Cosme Velho, pertencente ao avô materno, o senador Barros de Carvalho. Em 1968, com a instituição no país do Al-5, o pai do artista partiu com a família para o Chile, onde permaneceu por dois anos. T unga estudou arquitetura na Escola Santa Úrsula, na sua volta ao Rio de Janeiro, em 1970, mas mesmo antes de se formar, já começava a carreira de artista plástico. O trabalho de Tunga sempre teve a marca do inusitado. Em 1976, quando começava a carreira, impressionou a marchand paulistana Luisa Strina, que concedeu-lhe uma mostra individual em sua galeria, onde o artista mostrou uma instalação feita com latas de sardinha torcidas cheias de parafina derretida, feltro e uma piscina de mel. Depois, Tunga mudou-se para Paris, onde conviveu com intelectuais da envergadura de Roland Barthes. Foi lá que, estudando Breton, Artaud e Bataille, seu interesse pelo surrealismo aumentou. Foi ali também que aprofundou-se no estudo de teorias psicanalíticas. "Psicanálise é 99% arte, sobretudo considerando­s e que o núcleo central da teoria analítica está baseado no complexo de Édipo, que é, por sua vez, o nome de uma referencial obra de arte teatral", argumenta o artista. Em seu trabalho, Tunga utiliza teorias de Freud ou Lacan como instrumentalização, buscando, no processo, resgatar a noção de rito. Desde 1995, Alexandre da Cunha (Rio de Janeiro, RJ, 1969) vem desenvolvendo um trabalho tridimensional, construindo objetos com argila crua e outros materiais como látex, o plástico, o óleo, grafite, esmalte sintético. Recobrindo a argila crua com esses materiais o artista cria cascas, invólucros que agem como peles de estranhamento sobre seus corpos. Alexandre eventualmente utiliza o próprio corpo como ponto de partida para a criação de objetos escultóricos. Moldadas a partir de suas pernas e braços, os trabalhos feitos em argila crua e untados com óleo recebem, pouco a pouco, um tratamento que aproxima-os de formas sexuais. Uma vulva, um pênis, ou uma combinação hermafrodita de formas, os objetos tornam-se recipientes genitais, apresentados em prateleiras, tais como produtos de consumo. Em seus aspectos eróticos, os trabalhos respondem a um profundo questionamento sobre organicidades. Funcionam como uma pele que se desgasta através da ação temporal. Assim, as obras ganham aspectos de organismos vivos.A produção de Renata Pedrosa (Tremembé, SP, 1967) não lida com a representação de um corpo literal, mas centraliza-se na apresentação de um corpo-receptáculo de experiências, sensações e sentimentos. Sua opção no uso de materiais traduz uma busca de penetrar os aspectos orgânicos do corpo, como o aspecto tátil e as texturas da pele, a umidade dos órgãos internos. Desenhos feitos com grafite e outros "marcadores", como povidine e fita micropore, materializam as preocupações gestuais da artista. Recobrem o papel com uma miríade de estímulos sensoriais. Seus gestos no papel ganham posteriormente corpo, espessura, tridimensionalidade na transcrição para o veludo, a fibra de poliéster, as linhas de algodão, além do látex, da vaselina e do cabelo, presentes em certos trabalhos.A dimensão dos objetos construídos pelo imaginário da artista seguem uma única lógica: a lógica corporal. É a dimensão do corpo que impõe sua fisicalidade e que legimita suas formas escultóricas, atribuindo-lhes vida. A pulsação dessas formas, que parecem vitais, se apresentam ao observador com a fluência de um organismo que demanda múltiplas leituras. Os materiais são escolhidos com liberdade, respondendo especificamente às sensações e sentimentos que emergem sobre a superfície bidimensional do papel e, posteriormente, à poética pulsante das formas escultóricas. Na transposição do desenho à escultura, um mesmo assunto assume estratégias diferentes e assim, no processo, uma nova poética emerge. "A colocação da escultura no espaço dita uma conduta para sua elaboração, uma vez que o percurso do olhar envolve agora caminhar, às vezes até circundar o trabalho". No contato com os trabalhos, o observador então é convidado a recriá-los, estabelecendo um percurso pessoal.Carlos Arouca (São Paulo, SP, 1970) articula as bases do conceito de multiplicação do objeto artístico. A matéria prima na construção de suas obras é a matriz da gravura em metal, que dá origem a múltiplas reproduções e que ele utiliza como um símbolo da arqueologia do ser urbano. Fazendo uso da efemeridade, carimbada pelas corrosões a que o ferro se submete ao ser manipulado por ácidos, Arouca cria "inversos" da gravura. Incide sulcos na base metálica de um botijão de gás e cria um decantador de metal, com água e ácidos, que opera e constrói seu próprio desenho, baseado em corrosão.

Katia Canton